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A Gagueira e o Mito da Fluência Absoluta


Publicado na Revista Pátio - nº 74 - ANO XIX MAIO/JULHO 2015 – pp. 26 a 29


Silvia Friedman

Trabalho há mais de quarenta anos, como fonoaudióloga, com pessoas de todas as idades que apresentam gagueira e sempre me deparei com o fato de que, nos primeiros sete anos de sua vida, essas pessoas passaram por experiências comunicativas desagradáveis e traumáticas relacionadas com os pais, outros familiares, professores, amigos e pessoas em geral.   

Ao estudar essas experiências, entendi que isso ocorre fundamentalmente porque não se sabe que fluência e disfluência não se opõem; que a fluência inclui a disfluência. O conhecimento de senso comum baseia-se na crença de que a fluência é absoluta e a disfluência é um problema. Logo, também se acredita que quando uma criança disflui é preciso pedir-lhe que fale mais devagar, repita, respire, tenha calma, para ajuda-la a voltar à fluir.   

A ideia de que a fluência é absoluta é um mito. Além disso, a ajuda que as pessoas oferecem, por considerar a disfluência como problema, é justamente o fator que pode tornar a experiência comunicativa desagradável e traumática.   

A fluência é disfluente   
Fluência é a habilidade para manter o fluxo continuo da fala, sendo que algumas quebras e interrupções do discurso também são constituintes da fluência. Disfluência se refere a um tempo de planejamento, organização ou preparo mental do que se pretende dizer. Geralmente é composta por repetições de sons, sílabas ou palavras e/ou por prolongamentos de sons. Gagueira refere-se a momentos nos quais um falante sabe o que quer dizer, que palavras usar, mas sente vergonha, medo, falta de confiança em sua capacidade de pronunciá-las fluentemente. Algumas características são: interrupções tensas do fluxo da fala ou travas, interposição de sons ou palavras desnecessários, repetições do já dito (Friedman, 2010).

Disfluência e gagueira são duas condições de fala bem diferentes. A disfluência, curta ou longa, é parte integrante da fluência. Estudiosos da linguagem observaram que as crianças fluem nos trechos de fala conhecidos e acomodados, os quais vêm em blocos. Os trechos em construção, que supõe ações mentais mais complexas, são instáveis e disfluentes; referem-se a momentos em que a criança joga com a língua e descobre suas regras. Assim, o aparecimento de fluência e de disfluência reflete as relações da criança com a língua e a disfluência corresponde a momentos em que a criança organiza o discurso em sua subjetividade. Desse modo, os momentos de disfluência são passagens necessárias para voltar à fluência no funcionamento normal do discurso (Scarpa, 2006).

Estudiosos da linguagem também mostraram porquê uma boa quantidade de disfluência começa a aparecer na fala da criança entre o segundo e o terceiro ano de vida. No processo de adquirir linguagem, há um tempo em que a criança apenas repete os fragmentos do discurso dos adultos e então nunca apresenta erros. Posteriormente, aparecem erros e acertos, revelando que a criança já conhece o movimento da língua, mas ainda não conhece todas as suas regras.   

Aparecem então generalizações indevidas e a criança diz coisas como “fazi”, em vez de “fiz”. Na sequencia, os erros desaparecem e aparecem pausas, repetições, vacilações, ou seja, disfluências, ligadas à ação de reformular e autocorrigir o próprio discurso, revelando que a criança se tornou capaz de reconhecer que pode cometer erros gramaticais (De Lemos 2002). Assim, ao contrario do que se crê no senso comum, as disfluências indicam um aspecto positivo do processo de aquisição de linguagem.   

A disfluência, ainda, pode ser provocada pela influência do contexto sócio cultural na produção do discurso. Uma influência é a antecipação, ou seja, aquele que fala imagina o que seu interlocutor vai pensar dele e do está dizendo3 . Outra influência é a relação de forças, que refere aos lugares sociais ocupados pelas pessoas. Como vivemos numa sociedade hierárquica, esses lugares conferem certo valor àquilo que se diz, de modo que as palavras de uma pessoa podem valer mais que as de outra devido à sua posição social. Exemplos são as relações entre pai e filho, professor e aluno, patrão e empregado, etc. (Orlandi, 2005).   

A antecipação e a relação de forças, sempre presentes nas relações comunicativas, podem provocar a disfluência no discurso, mais comumente quando um falante se sente numa condição subalterna e teme a opinião do outro interlocutor. A própria literatura apresenta personagens com falas disfluentes quando se encontram numa situação de medo, ansiedade ou vergonha. Portanto, a fluência contém disfluências devido à condições linguísticas e sócioculturais que operam na subjetividade de quem fala.   

COMO AS RELAÇÕES COMUNICATIVAS PODEM TORNAR-SE TRAUMÁTICAS
Quando alguém considera a disfluência indesejável, desagradável, errada, anormal pode manifestar isso por meio da expressão corporal, principalmente a mímica facial, e também por meio de pedidos como: “Calma”; “Fale devagar”, “Respire antes de falar”Pare e comece de novo”, entre outros. No entanto, estudiosos da fonoaudiologia mostraram que com manifestações e pedidos desse tipo, não se reconhece o trecho de discurso disfluente como sendo linguagem, porque não se lhe atribui um sentido que dê continuidade à comunicação. Em vez disso, pede-se à criança que diga novamente o que já havia dito, porém de forma diferente, mais calma, mais lenta, enfim, sem disfluir. Não se fala, portanto, sobre o que a criança disse, mas sim sobre como ela o disse, negando um sentido e rejeitando o trecho disfluente devido à sua forma.

Os estudiosos mostraram ainda que, quando essa relação comunicativa vem de um adulto para uma criança, adquire um alto valor afetivo e tem um caráter autoritário (relação de forças). Tal condição não permite a reversibilidade discursiva, que se refere à capacidade de reconhecer e encontrar o erro no discurso e se autocorrigir (Orlandi, 2005).   

Por não saber como se auto corrigir, a criança fica aprisionada pelo valor e pela rejeição atribuídos à forma disfluente em sua fala e, ao mesmo tempo, silenciada por ela. Como não é capaz de localizar e corrigir o erro em seu discurso e tem que continuar falando, porque é isso que os outros ao seu redor esperam dela, comumente tenta corrigir o erro fazendo esforço como o corpo e passa a manifestar tensões ao falar (Azevedo e Freire, 2001).   

Essa tensão pode consistir em movimentos como travar-se no som inicial da palavra, franzir os olhos ou a testa, bater o pé, bater a mão ou jogar a cabeça para trás, a fim de soltar o som. A tensão pode manifestar-se também pela substituição de umas palavras por outras que lhe pareçam mais fáceis. Tudo isso indica que a criança enfrenta a sensação de sentir-se diferente dos outros e incapaz. Nesse condição, parece-lhe que os demais falantes são representantes de uma forma ideal de falar à qual ela não pertence. Parece-lhe também que os outros fiscalizam seu modo de falar (Azevedo e Freire, 2001).   

Quando esse estado interior se estabelece na subjetividade e se produzem tensões ao falar, a gagueira começou (Friedman, 2005). Na gagueira, a criança experimenta por antecipação o lugar de seus interlocutores como o daqueles que a veem, desde sempre, como gaga, embora nem todos a vejam dessa maneira. Ela fica cristalizada, nessa posição (Azevedo e Freire, 2001), o que significa que passa a ter uma imagem estigmatizada de falante. Esse tipo de imagem interna é a característica principal que sustenta a fala com gagueira, tornando as experiências comunicativas desagradáveis e traumáticas (Friedman, 2010).

COMO EVITAR QUE AS EXPERIÊNCIAS COMUNICATIVAS SE TORNEM DESAGRADÁVEIS E TRAUMÁTICAS
Com base na compreensão do papel que as relações de comunicação podem ter para o desenvolvimento da gagueira, faço algumas sugestões sobre como pais, professores e todos que lidam com a criança, podem ajudar a gerar relações comunicativas saudáveis. Ao escutar uma criança que disflui ou gagueja adote as seguintes atitudes:
• Não ignore o que ela está dizendo; não sugira que fale de outra forma ou desculpe-a dizendo ela ainda está aprendendo a falar. Olhe-a diretamente, de maneira acolhedora, mostrando-se interessado no que ela diz. Lembre que ela está organizando internamente o que deseja dizer e tem direito a fazê-lo no seu tempo.
• Sempre responda ao seu discurso pelo sentido do que foi dito e de nenhuma maneira chame sua atenção para a forma de falar, como se não fosse adequada.
• Nunca complete palavras ou frases, a menos que a própria criança o peça.
• Dê total liberdade para que a criança fale conforme o seu tempo e do seu modo, seja na sala de aula, na rua ou em casa.
• Não obrigue a criança a ler em voz alta na escola ou a expor-se socialmente, de qualquer forma que seja, se ela não o deseja. Isso não a ajudará em nada e só lhe causará sofrimento. Para avaliar seu conhecimento na escola, devem criar-se atividades alternativas.
• Se pais ou professores presenciarem pessoas reagindo de modo negativo à forma de falar da criança, imediatamente devem fortalece-la e assegurar-lhe que sua forma de falar é boa e valida. Devem também garantir-lhe que se algo de errado está acontecendo, o erro não está na sua fala e sim na reação negativa dos outros.

As informações a seguir são importantes para atuar de modo saudável diante das reações negativas dos outros à disfluência ou à gagueira de uma criança.
• As reações negativas, tais como risadas, imitações, deboches, apelidos, devem ser considerados como assedio moral e bulling, porque podem humilhar a criança e transformá-la em vítima.
• A criança costuma mostra-se tolerante diante dessas reações dos outros e pode não demonstrar que se sentiu incomodada, agredida e angustiada, guardando todo o sofrimento para si.
• A criança, ao perceber que sua forma de falar não é aceita pelos pais, familiares e/ou professores, interioriza uma imagem negativa de si mesma como falante e pode passar a considerar a disfluência ou a gagueira como um castigo.
• As reações que rejeitam e ferem a criança geram sentimentos dolorosos em sua imagem de falante que se agravam quando, no contexto social (lar, escola), não são tomadas como algo grave e nada se comenta ou faz a respeito delas.
• As crianças que são constantemente rejeitadas pela sua maneira de falar percebem que não falam como desejariam seus pais, parentes e professores, sentindo-se culpadas por decepciona-los e envergonha-los. Por isso, esforçam-se para falar do modo esperado pelos outros, antecipando os possíveis lugares da gagueira naquilo que irão falar. No entanto, essa antecipação prejudica a espontaneidade de sua fala, tornando-a cada vez mais tensa.
• Esses aspectos geram um sofrimento, cujo efeito contribui para manter e piorar a gagueira. A fluência de fala está diretamente relacionada não apenas à capacidade linguística, mas também com o bem estar emocional.

Como favorecer a fluência da criança
• Dando-lhe sempre explicações sobre tudo o que se passa à sua volta a respeito das pessoas, das situações, dos objetos e da natureza.
• Contando-lhe histórias e repetindo-as tantas vezes quantas ela deseje.
• Falando de modo claro e lento para que tenha tempo de compreender tudo.
• Estimulando-a a falar sobre seus pensamentos, fantasias, sonhos ou experiências, dando-lhe todo o tempo de que precise para isso e fazendo comentários sobre o dito.
• Não deixando que os outros, sejam crianças ou adultos, tomem sua palavra, fazendo-a calar-se. Informara aos outros que devem esperar a criança terminar o que está dizendo para depois manifestar-se.

Treinamentos para a motricidade oral não são o caminho adequado para lidar com a disfluência e a gagueira. Esse tipo de abordagem favorece a sensação de incompetência para falar e o medo que a criança tem de gaguejar diante dos outros.

O fonoaudiólogo especializado no atendimento aos problemas de fluência de fala é o profissional habilitado a ajudar a criança, seus pais e professores em relação às dificuldades de fluência.  Ele deve ser procurado tão logo se considere que há problemas de fluência. Vale ressaltar que ainda há poucos fonoaudiólogos com esse tipo de especialização.

Referências

  1. SCARPA, E.M. (2006) (Ainda) Sobre o Sujeito Fluente, em Aquisição, Patologias e Clínica de Linguagem, São Paulo: EDUC- Editora da PUCSP, pp. 161-180.
  2. DE LEMOS, C.T.G. (2002) Das vicissitudes da fala da criança e de sua investigação. Caderno de Estudos Lingüísticos, Campinas, 42, pp. 41-69.
  3. ORLANDI, E. (2005) Análise de Discurso: princípios e procedimentos. São Paulo: Pontes.
  4. AZEVEDO, N.; FREIRE, R. (2001) Trajetórias de aprisionamento e silenciamento na língua: o sujeito, a gagueira e o outro, em Gagueira e Subjetividade: possibilidades de tratamento. Porto Alegre: Artmed. pp. 146-160.
  5. FRIEDMAN, S. (2010) Fluência de Fala: Um Acontecimento Complexo, em Tratado de Fonoaudiologia, cap. 47. São Paulo: Editora Roca Ltda. pp. 443-448