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Gagueira e motricidade oral


Silvia Friedman

Porque profissionais, muito frequentemente, tratam de gagueira com técnicas para problema de motricidade oral?
Porque esse tratamento pode não ser adequado?

A fala com gagueira, do ponto de vista psicológico, é uma condição profundamente ligada aos sentimentos de medo e fuga de gaguejar diante de outras pessoas.

Esses dois sentimentos revelam que a gagueira pode ser prevista pelo falante e lhe parecer ameaçadora.

São as sensações de medo e ameaça que levam às tentativas de fugir ou evitar de gaguejar. Isto, por sua vez, leva à tentativa de controlar a produção da fala.

A produção da fala, entretanto, é uma ação automática e espontânea, (ou seja, sabemos como falar, mas não sabemos como sabemos) e, por isso, a tentativa de controlá-la para não gaguejar tem como consequências mais frequentes:
- o tesionamento dos músculos da fala (língua, mandíbula, bochechas, lábios) e de outras musculaturas no corpo (pescoço, ombros, braços, abdômen, etc.) ao falar;

- o surgimento de quebras tensas no fluxo da fala, as chamadas travas;
- a interposição de sons e/ou palavras e/ou movimentos desnecessários ao que está sendo dito (os assim chamados truques);
- as seguidas repetições de sons ou palavras já ditas, por medo de pronunciar as seguintes;
- as trocas de uma palavra por outras consideradas mais fáceis (também entendidos como truques).

Assim, o temor e a previsão da gagueira levam à produção de travas e tensões ao falar e, embora a intenção do falante seja a de conseguir não gaguejar, essas travas e tensões constituem a própria gagueira. Por esse motivo, exatamente, muitos estudiosos da gagueira, que eram gagos, já disseram que a gagueira é tudo que se faz para não gaguejar.

Nessa condição, embora a motricidade oral se mostre prejudicada, não há, de fato, nenhum problema de motricidade oral propriamente dito e sim uma ação psicológica (a de prever, temer e tentar fugir da gagueira) que destrói a espontaneidade natural da fala.

Diante disso, é importante considerar que os exercícios de motricidade oral fortalecem o sentimento de incapacidade para falar e o desejo de controlar a fala. Logo, não são um procedimento eficaz para superar a gagueira, mas sim para mantê-la e até aumentá-la.

Profissionais empregam esse tipo de procedimento por não terem conhecimentos sobre o complexo funcionamento psicológico da gagueira e, consequentemente, sobre o modo de lidar terapeuticamente com ele. Na falta desse conhecimento, tratam de gagueira a partir daquilo que se vê: as tensões na fala; os truques para não gaguejar, estimulando a pessoa a falar mais lentamente, a modificar sua voz, a suavizar seus movimentos, a respirar antes de falar e até a falar cantando, sempre com o objetivo de fazê-la controlar esses comportamentos. Mas, como vimos, controlar é o problema!

O tratamento eficaz é aquele que leva a pessoa que gagueja a superar o temor de gaguejar e a desenvolver confiança em sua capacidade de falar.